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CORPOS EM REGISTRO, CORPOS EM RISTE

    O objetivo desta mostra é apresentar as trajetórias das pessoas transgêneros e travestis representadas / autorrepresentadas no curta documentário brasileiro a partir da segunda década dos anos 2000 e a guinada para a libertação de seus corpos e manifestação de suas existências em filme.  

    Esse recorte de tempo está alinhado diretamente tanto com os sentidos e ações produzidos pelo acesso às novas tecnologias, que digitalizaram os modelos de produção audiovisual (proporcionando uma amplitude de novas vozes) quanto ao desenvolvimento de algumas políticas públicas e ações afirmativas para o setor que atuaram para fazer surgir na produção brasileira,  existências e resistências de outros corpos, proporcionando assim algum movimento (ainda incipiente e atualmente sofrendo retrocessos) orientado pela equidade de gênero, raça e classe na produção, distribuição e exibição de filmes pelo país.

    

    O que se revelou foi um gama importante de curtas-metragens  que se valeram do documentário para iluminar essas vivências insurgentes, registrando as reflexões e as lutas por emancipação de sua corporalidade perante uma sociedade heteronormativa e transfóbica.  

    O cinema documentário se revela como um dispositivo de(re)invenção  criativa e sensível do real. Da mesma maneira que os filmes aqui apresentados documentam os processos criativos, estéticos e sociais de reinvenção desses corpos e sua relação com seus mundos.

    Sendo assim, essa seleção apresenta um mosaico de  histórias de vida, e revelam as múltiplas e complexas possibilidades de existir da pessoa trans/travesti, deslocam perspectivas a partir da ideia não-fixa sobre corpos e gêneros e suas (des) construções, se posicionam de maneira ativa enquanto personagens, com participação ativa na elaboração narrativa dos próprios filmes, estabelecendo um jogo de cena entre o documentarista e o documentado, manifestam a transexualidade masculina (ainda pouco representada) enquanto declaração de viver e dar a ver, expressam a intersecção entre raça, gênero e etnicidade a partir de suas dores e afetos, e nos apresentam a relevância da autorrepresentação enquanto emergência e da construção de  uma cinematografia dessa categoria social e política de sujeita/sujeite/sujeito que se postulam na vida e se enunciam pelo cinema e sua potencial arca de atraques dissidentes. 

 

MARCIO PAIXÃO, curador.

THIAGO TAVARES, curador.