Buscar
  • Pajubá Festival de Cinema LGBTI do Rio de Janeiro

Texto: Pajubeyrices e Resistência


Divulgação: Majur (Mostra Atraque)


Eu não era mais que um erê, uma criança vyada que ainda nem se sabia vyada, quando tive contato pela primeira vez com o pajubá. Na época, a casa da minha vizinha era um ilè de candomblé que vivia cheio de byxas e travestis e, com muita curiosidade, eu ouvia do meu quintal as conversas repletas de termos como odara, ocó, mona, edí e mapôa, entre outros. Eu não entendia nada, mas cultivava certa expectativa em compreender aquele código, que só fui entender depois que abandonei o armário e comecei a sair e fazer amizade com outras byxas e sapatonas da minha idade, quando descobri a vida entre “os entendidos e as entendidas” nos bares, boatchys e nas Paradas do Orgulho LGTI+. Rapidamente percebi que aquelas palavras, aquela forma de falar e de se portar, criavam estratégias de união, colaboravam para uma coesão identitária de grupo e comunidade. Entre dezenas de pessoas, uma mona facilmente reconhecia a outra no primeiro uó falado mais alto, na primeira gargalhada sobre uma neca matim, no primeiro grito denunciando a elza. Mas o nome pajubá em si e a sua origem só fui conhecer mais tarde.

Hoje, byxa ainda xovem porém encaminhando-se para a cacurice, estudo as vivências LGBTI+ no Brasil. Investigando sobre o pajubá para uma pesquisa acadêmica, identifiquei que o início dos seus usos linguísticos ou o seu surgimento ocorreu com as travestis e as adés que frequentavam os terreiros e roças de candomblé entre as décadas de 1960 e 1970, durante a Ditadura Hétero-Civil-Militar instaurada no Brasil em 1964. Aquelas manas macumbêras estavam em contato direto com a utilização ritualística do iorubá e do nagô falados nesses espaços, a chamada “língua de santo”, e se apropriaram daquelas palavras de origem africana para desenvolverem um vocabulário próprio, uma forma de se comunicarem sem serem compreendidas pelo “mundo externo” (diga-se: pessoas cisgênero, heterossexuais e brancas, já que é uma língua de origem negra), um código capaz de enfrentar a violência e a opressão que naquele período não vinha somente da polícia e dos militares, mas de toda a sociedade (como ainda hoje). Com o tempo, esse vocabulário recebeu o nome de pajubá e foi sendo incorporado por outras pessoas LGBTI+ para além das travestis, pessoas trans e byxas efeminadas.

Atualmente o pajubá pode ser compreendido de diversas formas. Alguns dizem que é um dialeto de grupo, outros que se trata de um jargão ou gíria, e há quem defenda a tese de que esta é uma variação linguística do português brasileiro (como eu), mas o que importa é que o pajubá chegou ao espaço urbano sendo empregado como forma de proteção e de resistência por parte das/os suas/seus falantes. Ele ultrapassou as suas primeiras usuárias e disseminou-se entre todas as pessoas LGBTI+ brasileiras, apresentando até mesmo variações regionais. Hoje o pajubá é resultado de uma cultura dissidente e constituinte da mesma. É uma potência subversiva que se apresenta não somente por meio de palavras, mas em performances gestuais e posturas corporais que materializam os seus sentidos em instâncias formadoras de subjetividades e inauguram sociabilidades e relações outras para além da cys-heterossexualidade. É um mecanismo de guerrilha, uma antropofagya que estrutura e propõe novos significados para termos do iorubá, do português e de outras línguas como o inglês e o francês, acionando mecanismos anticoloniais, pós-coloniais, descoloniais, antirracistas e anti-lgbtifóbicos, convertendo-se em uma criação de liberdade, um poder de enfrentamento do cystema hétero e branco.

O pajubá, mais que uma variação linguística, é uma poética cotidiana de estranhamento, uma experiência queer que forma e transforma o que está dado, o que oprime, em emergência da vida e arte por meio da gongação, do ejó, do atraque, da zombaria e da lacração. Dessa forma, como grupo socialmente excluído que sofre diversas subalternizações, as pessoas LGBTI+ criaram uma linguagem e uma cultura própria – cultura essa que hoje está na música, na literatura, no teatro e nas produções audiovisuais. Assim, entre antigas e novas pajubeyrices, a resistência continua presente nesta linguagem e através dela, sendo uma característica pujante e colaborando com o desenvolvimento de existências que se fazem revolucionárias e desafiadoras simplesmente por existirem. No momento atual de agravamento e avanço das direitas e do ultraconservadorismo, é preciso mais do que nunca pajubeyrar e resgatar a potência política do pajubá, através de produções artísticas ou em vivências cotidianas. É preciso recuperar essa língua de enfrentamento e disputa, suas origens históricas e suas potências, e enxergar nela as diversas possibilidades de criação, reinvenção e revolução que apresenta.



João G. Junior

Poeta, professor, historiador e militante LGBTI+

Fevereiro de 2021


João G. Junior nasceu em Queimados, no Rio de Janeiro, em 1993. É licenciado em História (IM-UFRRJ), mestre em História Social (PPGH/UFF), e mestrando em Sociologia (PPGSA/IFCS-UFRJ). Atualmente está concluindo uma pesquisa sobre o pajubá no curso de Especialização em Estudos Linguísticos e Literários (IFRJ-Nilópolis). Como pesquisador, é membro de laboratórios de pesquisa e tem diversos artigos publicados em revistas acadêmicas. É militante da causa LGBTI+ e membro do Conselho Estadual LGBTI+ do RJ. Como poeta publicou os livros O que ri por último (Patuá, 2020) e O tédio dos dias variados (Urutau, 2020), entre outros trabalhos.



136 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo