IMG_9483 - Casa do Sandino.JPG

PARA OLHAR OS LUGARES

 

    Durante o processo de curadoria desta mostra, fomos seguindo o fluxo do(s) rio(s) e nos deixamos guiar pela seguinte questão: O que há relativo ao estado do Rio de Janeiro  na produção de nossos/nossas realizadorxs LGBTI+? O conjunto das produções realizadas no estado revela-se como filmes de urgência, de guerrilha, que se “atracam” na imediata necessidade de filmar, apesar da falta de políticas culturais sistêmicas e abrangentes que deem subsídios a essas iniciativas e de anos de uma crise econômica e social no estado, que limitam e ceifam as possibilidades de sonho e transformação social. 

    As existências lgbti+ elaboram seus trajetos de vida construídos em territórios, desta forma, os espaços (urbanos e rurais, periféricos e dos centros, espaços institucionais e políticos) atuam  na possibilidade de validação e também de exclusão dessas vivências, produzindo assim um conflituoso quadro social necessário para a compreensão do estar no mundo sendo uma pessoa lgbti+.  As instituições sociais também podem ser entendidas como espaços, e mesmo alocados em edificações concretas (universidades, escolas, igrejas, residências...), são responsáveis por resguardar e assegurar as normas que regulam e propagam as regras de gênero e sexualidade da vida em sociedade. 

    A partir dessa questão, selecionamos os filmes que dialogam entre si a partir de uma forte noção de territorialidade atrelada às instituições sociais e culturais (família, educação, religião e trabalho). Os filmes aqui contidos expressam o encontro de seus realizadores com os seus lugares.  A seleção revela uma pujante diversidade de visões e temáticas, promovendo de maneira interseccional as questões de gênero, raça e classe com as questões territoriais .

    A relação lugar x filme está presente desde os seus enquadramentos, buscando relacionar seus personagens com o espaço em que habitam, funcionando assim como “terreno” dos filmes e de suas narrativas. A posição tomada por esses curtas não nos deixar esquecer que esses personagens não estão suspensos no ar, mas presentes,  em constante conexão com os lugares que atravessam suas existências, sejam na em sua dimensão criativa ou como manifestação e materialização de seus desejos sexuais ou afetivos.

     A dimensão sônica (ruído, música e som) proposta pelos percursos dos personagens dos curtas-metragens desta mostra, também possibilita a criação de um cenário crítico e reflexivo como parte do desenvolvimento de interpretação desses processos sociais que os corpos e agências lgbti+ estão propondo. A vocalização de uma mulher preta lésbica artista ecoando num vagão de trem, ou em um microfone para amplificar e proclamar a sua existência, o ruído das águas de uma cachoeira engendrado compondo a performance do corpo transgênero/travesti, o som dos carros, ônibus e pedestres incutindo o sentimento afetivo de um relacionamento homossexual, as simultâneas vozes em uma sala de aula da periferia refletindo sobre questões de gênero no esporte, são alguns exemplos contidos nesses filmes, e por isso fazem parte dessa seleção. 

    Portanto, o que propõe essa mostra é justamente um mapeamento dos filmes realizados por pessoas lgbti+ fluminenses que complexificam a maneira como o espaço/território  interfere no seu estar no mundo.

 

MÁRCIO PAIXÃO, curador.

THIAGO TAVARES, curador.